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Our Life: Beginnings & Always: quando um pai paga para o filho ter um amigo

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Uma novela visual que grava cada escolha da infância e devolve o efeito dela anos depois, dentro da própria história.

Um pai paga para o filho ter um amigo

Jamie tem oito anos, mora perto da praia e vive dias de verão que parecem não acabar quando um estranho aborda o menino ao entardecer. É o senhor Holden, o vizinho novo, e ele está disposto a pagar para que Jamie seja amigo do próprio filho. O garoto se chama Cove, tem um nome estranho e um jeito mais estranho ainda — e, aceite Jamie o trato ou não, Cove não vai embora: ele está ali, ao lado, para ficar. É desse acordo torto entre um adulto e uma criança que nasce o romance que Our Life: Beginnings & Always oferece — sem outra opção possível.

O jogo deixa quase tudo por sua conta: nome, aparência, personalidade e pronome do seu personagem podem ser redesenhados a cada fase da vida, inclusive trocando de pronome no meio da história. Os outros personagens registram o que você prefere e devolvem isso mais adiante — uma bebida favorita, uma reação a alguma notícia, tudo vira memória para quem convive com você. Só uma coisa fica fora dessa liberdade: o par romântico é sempre Cove. Você escolhe o ritmo — amor à primeira vista, uma confissão de última hora ou simplesmente ficar só na amizade — mas não escolhe com quem.

A história atravessa quatro fases da vida — infância, adolescência, começo da vida adulta e a vida adulta plena. São cerca de 397.000 palavras ao todo. Para chegar ao fim, o jogo costuma pedir de 16 a 24 horas. Quem assina o roteiro e a arte é a GB Patch Games, que também publica o próprio jogo, lançado em junho de 2022. Tristeza, raiva, estresse e preocupação aparecem sem serem escondidas, e a cada uma delas o jogo responde com uma cena de acolhimento — o que fica não são os grandes marcos da vida, mas o que sobra deles nas rotinas pequenas do dia a dia.

Quem esperava pouco, saiu comovido

As notas boas se repetem num padrão: gente que não esperava se afeiçoar tanto. Imagine cair num jogo por acaso, vindo de uma recomendação qualquer da loja, sem ter outro título do gênero para comparar — foi assim que uma pessoa descreveu a experiência, confortável muito além do que esperava. Outra, doente de cama com uma infecção no peito em outubro de 2022, não é do tipo que costuma ler romance nem se emocionar com jogo — e quase chorou pelo menos uma vez.

O elogio mais repetido é o das escolhas que voltam. Uma jogadora que já passou pela história três vezes, em agosto de 2024, destaca como opções triviais dos primeiros capítulos reaparecem, relevantes, muito mais à frente. Outra, em outubro do mesmo ano, já planeja comprar os complementos só para repetir a história com escolhas diferentes.

A ressalva mais forte, porém, não vem de quem não gostou: vem de dentro do elogio mais entusiasmado. Ainda no dia do lançamento, em junho de 2022, uma resenha de cinco estrelas destaca a extensão das escolhas e credita aos complementos pagos por dobrar a duração da história — mas registra a queixa mais séria do lado positivo: o jogo só permite um par romântico, sempre o mesmo rapaz. A liberdade de redesenhar quase tudo sobre quem você é esbarra num ponto fixo: por quem se apaixonar já vem decidido.

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A queixa que não é sobre o jogo

Também em junho de 2022, dias depois do lançamento, a resenha mais longa do lado ruim mira outra coisa: chama o jogo de pouco mais que uma sequência de cliques, mais perto de folhear um álbum de figuras do que de um jogo de verdade, e lembra Pong como exemplo do que, para quem escreveu, merece esse nome. É a crítica que fala de mecânica ali — as outras miram o tema. Se é reflexo na mão que você busca, essa reclamação vai soar familiar.

As demais notas mínimas, publicadas entre junho de 2022 e janeiro de 2024, não discutem roteiro nem jogabilidade: rejeitam o jogo porque o romance é sempre entre dois rapazes, sem alternativa, independentemente de como o jogador tenha montado seu próprio personagem.

Nada disso muda o quadro geral: nas avaliações registradas na própria GOG, a aprovação é maior que a rejeição, mas está longe de unânime — e a divergência que existe não é sobre o que o jogo entrega, é sobre quem ele deixa você amar.

Ritmo lento, romance fixo: quem fica e quem sai

Quem chega a Our Life esperando reflexo, combate ou quebra-cabeça sai frustrado nos primeiros minutos: aqui a ação é decidir como seu personagem sente algo, não o que ele faz com as mãos. Se é reflexo que você busca, a comparação que a resenha mais crítica faz com jogos de ação simples é justa — não é esse o formato que este jogo oferece.

Quem fica é quem topa outro tipo de contrato: aceitar que o par romântico já vem escolhido — sempre Cove — e trocar ineditismo de enredo por fidelidade às próprias escolhas, que a história devolve capítulos depois. Não serve para quem quer decidir por quem se apaixona; serve bem para quem quer decidir como.