Cat Named Mojave: a saída do deserto passa pelo porão de um Homem-Gato
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Um terror surreal e curto que faz questão de incomodar — e é recomendado justamente por isso.
O acordo com o Homem-Gato
Uma bateria de carro descarregada larga você no meio do deserto, sem rota de fuga. A única saída atende por Homem-Gato: carismático, sempre de olho em você e instável a ponto de nunca dar para saber onde se pisa. O acordo que ele propõe é curto — traga troféus para o porão dele, e quem sabe você vá embora. Os troféus são criaturas surreais que vivem lá fora, e o serviço não acaba na caçada: é preciso esfolar, cortar e guardar.
É um terror em primeira pessoa de mecânica simples e proposital. A câmera não cobra reflexo rápido, e o desconforto não nasce do susto, e sim do que o jogo coloca nas suas mãos. A cada peça entregue, o cenário em volta se abre um tanto: pistas de um deserto quase morto, onde você parece um dos últimos humanos, soltas com ambiguidade suficiente para você fechar o resto sozinho. A jogabilidade nunca deixa esquecer o que está pedindo — encarar o próprio papel na história é parte do jogo.
O estúdio não largou o jogo depois de dezembro
A Stargazers Studios, que assina o jogo sozinha, não sumiu depois do lançamento. Nos meses seguintes, levou o terror para o PS5, deixou-o verificado no Steam Deck e sentou com tradutores para dar suporte oficial a russo, japonês e chinês simplificado, além de trocar fontes e limpar erros de texto que atrapalhavam a leitura em vários idiomas. É bastidor sem brilho, mas conta algo: um estúdio pequeno tratando um jogo curto e já acabado como coisa viva, alargando quem consegue jogá-lo em vez de correr para o próximo.
Quem recomenda também confessa que se sentiu mal
A recepção reunida na Steam é calorosa e desconfortável ao mesmo tempo. Uma pessoa passou cinco horas, terminou e recomeçou só para ver o que tinha deixado escapar; descreveu o clima como um calor seco e pesado, de incerteza constante, olhando para trás a cada passo. Outra largou com uma hora de jogo, recomendou assim mesmo e resumiu dizendo que detestou a experiência inteira — e agradeceu ao estúdio por isso. Um terceiro, com duas horas, saiu do deserto carregando as perguntas do jogo em vez de respostas, tocado pelo mundo triste que tinha atravessado.
O elogio quase nunca é sobre diversão. É sobre tensão: gente que ficou na ponta dos pés, que riu de nervoso quando o gato se pôs a dançar na cozinha, que saiu pensando no absurdo de emprestar valores humanos aos bichos. O humor macabro anda junto da violência sem amaciar nenhum dos dois. Nada disso vem da loja onde o jogo está sendo dado: quem escreveu está na página da Steam, e lá o elogio é quase unânime entre um público que ainda é pequeno.
A reclamação que se repete: é curto demais
A crítica que volta não parte de quem detestou o jogo, e sim de quem o recomenda: ele é curto. Um jogador de quatro horas fechou querendo mais — mais mundo, mais desdobramento, um fim menos abrupto. É o reparo de quem queria continuar, não de quem se arrependeu. E há o desconforto de propósito: esfolar e picar as criaturas não é enfeite, é o centro do jogo. Quem espera que o terror ofereça algum consolo no final não vai encontrar consolo.
Para quem tem estômago e uma tarde livre
Isto é para quem quer uma história de terror curta, estranha e suja, do tipo que fica remoendo horas depois de desligada, e não se incomoda de ser cúmplice do que acontece na tela. Se ver um bicho ser esfolado já embrulha o estômago, a primeira caçada encerra o assunto ali. Se você mede jogo por horas de campanha, o fim chega cedo demais — os próprios fãs pediram mais. E se procura diversão leve, o Homem-Gato não mora na sua casa. O que ele pede de você não é reflexo nem paciência: é segurar a faca até o fim e aguentar o que ela faz.