Natal Perdido: a magia vem de versículos bíblicos, e nem quem recomenda compra a promessa
Sem prazo: fica no catálogo até a loja tirar.
Resgatar na Steam ↗O resgate é na sua conta da loja; o Clairo não resgata por você.
A disponibilidade pode variar conforme a região.
Um RPG de turnos feito sozinho, com labirintos sem saída marcada e um estúdio que já anuncia jogos novos enquanto este segue sem data de conclusão.
A magia que nasce dos versículos
Você equipa um versículo como quem equipa um anel mágico, sem saber se aquilo vai virar dano, defesa ou só enfeite de status. Essa é a única mecânica original de Natal Perdido: personagens desbloqueiam magia encontrando ou adquirindo trechos da Bíblia espalhados pelo mundo, e cada um, ao ser equipado, garante habilidades e atributos conforme a passagem descrita nele. O resto do combate segue o modelo tradicional de turnos — ataque, defesa, habilidade, item — sem surpresa nenhuma.
A premissa: Emília é uma garota comum vivendo no alto de uma montanha até que anjos e demônios passam a se enfrentar pela posse das almas humanas, disputa que dá nome ao jogo. É a partir desse confronto que a jornada da protagonista começa, num roteiro que a própria ficha promete cheio de mistério, mas cujo miolo — como as seções seguintes mostram — nem sempre convence quem joga.
Feito sozinho sob o selo SlimeNot e lançado em 21 de abril de 2022, o jogo chega catalogado como acesso antecipado — e a ficha da loja é categórica: não há outro RPG cristão no Steam.
Enquanto Natal Perdido ficou perdido, o estúdio seguiu em frente
Se você acompanhou o jogo desde o lançamento, os posts do estúdio contam uma história diferente da que a ficha resume. No fim de novembro de 2024, o próprio estúdio avisou que o projeto seguiria sem data de conclusão e que um novo jogo, sem acesso antecipado, já estava em andamento. Três semanas depois veio o anúncio de pré-venda de Vida, um novo jogo ambientado num futuro distópico — com o recado de que quem gostou de Natal Perdido gostaria da novidade também.
Nos meses seguintes vieram mais anúncios: uma parceria entre o estúdio, a Yeon e a LoveTech, e por fim um Patreon para outro projeto, um jogo de fantasia chamado Skeleton King: Isekai Harem. Cada post apresenta um projeto novo — nenhum deles é sobre terminar este.
A única voz que recomenda, e a ressalva que ela não esconde
A avaliação que chegou até aqui elogiando o jogo tem hora marcada: seis horas jogadas, publicada em 3 de julho de 2026. Quem escreveu compara o visual e o ritmo de combate ao clássico Breath of Fire 2 e garante que o projeto tem chão para crescer — mas não sem cutucar o mesmo ponto que a ficha da loja usa para se vender: para essa pessoa, a perspectiva bíblica prometida não aparece na narrativa, e os versículos que desbloqueiam magia soam soltos, desconectados do resto do enredo, mais decoração do que doutrina. Recomenda mesmo assim, com a ressalva de que quem espera coerência com a Bíblia vai se frustrar.
Uma floresta sem saída, uma batalha sem fim
Passar duas horas girando em círculos dentro de uma floresta sem indicação de saída é a experiência que te espera, segundo quem jogou em março de 2024 e não achou o caminho até desistir. Outro jogador, com uma hora exata de partida, resume o cansaço direto: batalhas de turno arrastadas, logo nos primeiros combates, contra um chefe chamado Sam.
Queixa parecida, datada de dezembro de 2022, vem de quem chegou a oito horas de jogo: personagens sem traço marcante, diálogos rasos e uma história com potencial que a jogabilidade desequilibrada não deixa render. Uma resenha em inglês, de quatro horas jogadas, publicada em 2025, vai mais longe: descreve o game como mais um título construído sobre o motor RPG Maker, com aparência e criaturas reaproveitadas de bancos de recursos prontos, e estranha o peso que a mensagem religiosa ganha dentro da jogabilidade.
Em setembro de 2024, com seis horas de jogo, outro relato reforça que fazia mais de um ano que o estúdio não dava sinal de vida sobre o projeto — leitura confirmada pouco depois pelo próprio estúdio, que assumiu não ter mais previsão de conclusão. A acusação mais dura de todas, a de que o autor seria um golpista por deixar o jogo de lado, vem de quem registrou zero hora jogada, em agosto de 2022: uma indignação escrita antes mesmo de abrir o jogo. As críticas que pesam de verdade são as outras, assinadas por quem chegou a somar seis, oito horas de partida antes de desistir.
Para quem serve um projeto que seu próprio autor decidiu não terminar
Se você quer ver um sistema de magia que tenta transformar escritura em atributo, um confronto entre anjos e demônios contado por uma pessoa só, e não se importa em topar labirinto sem saída marcada e combate desequilibrado, Natal Perdido ainda tem o que mostrar. Quem precisa de roteiro que sustente o elenco, de batalhas calibradas ou da garantia de que o jogo vai seguir recebendo atenção já tem a resposta nas próprias palavras do estúdio: o próximo projeto já saiu, e não é este. Os anjos e os demônios brigam pelas almas dos personagens; o estúdio já escolheu a sua.