Me avisem

Robert Foster ressuscitou o próprio amigo para sobreviver a Union City

STEAM
SEMPRE GRÁTIS NA STEAM

Sem prazo: fica no catálogo até a loja tirar.

Resgatar na Steam ↗

O resgate é na sua conta da loja; o Clairo não resgata por você.

A disponibilidade pode variar conforme a região.

Sob a direção de arte do criador de Watchmen, o mesmo obstáculo que vira nostalgia para uns é motivo de desistência para outros.

Uma placa de circuito é a única família que sobrou

Robert Foster sai vivo de um acidente de helicóptero sobre Union City com uma única companhia: a placa de circuito do melhor amigo que lhe resta. Foi ele mesmo, ainda garoto, quem montou aquela inteligência artificial na aldeia que os soldados destruíram ao sequestrá-lo, e a primeira coisa que faz na cidade estranha é religar Joey. Antes de entender Union City, você já entende Joey: é a única voz amiga que sobrou depois que a aldeia virou ruína. É dessa dupla — um homem sem família e o robô que ele próprio inventou — que nasce o resto da história.

Union City é uma pilha de torres onde a população oprimida vive sob o controle de uma ditadura de inteligência artificial, enquanto os ricos moram nos andares de baixo, protegidos da poluição que sufoca quem está em cima. Homem contra homem, homem contra máquina, homem contra o tempo: é assim que o próprio material da loja resume os embates que Foster e Joey atravessam até descobrir por que, entre toda uma aldeia, foi ele quem os soldados vieram buscar.

A direção de arte é assinada por Dave Gibbons, o quadrinista de Watchmen — informação que a própria ficha da loja faz questão de registrar. E há uma curiosidade que ela entrega sem comentário nenhum: o título carrega 1994 entre parênteses. A data de lançamento que a página lista para esta versão, porém, é 27 de julho de 2020. Um jogo sobre trazer um amigo de volta à vida chegou à loja décadas depois de ter sido feito — outra ressurreição, dessa vez do próprio jogo.

Beyond a Steel Sky: a sequência que a Revolution não largou

Muitos estúdios lançam um jogo e seguem adiante sem olhar para trás. A Revolution Software não seguiu esse roteiro: ainda em 2020, o time voltava a público para falar da sequência direta, Beyond a Steel Sky, tratando-a como projeto em andamento. Você sente esse cuidado sem precisar ler post nenhum: o mesmo estúdio que escreveu Foster seguia tratando a própria história como algo inacabado. O post de 30 de setembro daquele ano lista conquistas novas — recompensando comportamentos que o jogador talvez nem tivesse considerado — e dublagens completas em francês e alemão. A história de Foster e Joey, pelos próprios registros do estúdio, não parou na primeira aventura.

O traço de um quadrinista e o humor que sobra do fim do mundo

Um jogador brasileiro com 4 horas de jogo resume o que mais se repete nos relatos: em meio aos temas mais pesados da história, o que mais chama atenção, segundo ele, é o desenho de Dave Gibbons — o mesmo nome por trás de Watchmen — encaixado numa trama que mistura tragédia com piada sem parecer improvisado.

Duas resenhas alemãs, cada uma com 11 horas jogadas, chegam a uma conclusão parecida por outro caminho: chamam o jogo de clássico escondido e recomendam sobretudo a quem gosta de material retrô, citando o enredo e os enigmas como os pontos fortes — mesmo admitindo que, em alguns trechos, foi preciso parar e buscar ajuda para seguir em frente.

Quem joga por 7 horas credita parte do resultado ao parceiro que Foster carrega desde o começo: o humor do robô Joey é, para essa resenha, o que sustenta uma trama que ela descreve como divertida e imprevisível do início ao fim. É o tipo de humor que você reconhece rápido: o parceiro debochado que solta a piada certa bem no momento em que a cena pesa demais. Outro relato, de 19 horas jogadas, elogia o clima sombrio da cidade e garante que o jogo roda liso em máquinas atuais — trazendo de volta, de um jeito bem prático, a mesma ideia de resgate que abre a história.

534 gostaramVery Positive64 não

Quando o cursor antigo cobra seu tributo

Gosta do gênero e, mesmo assim, fecha a resenha recomendando contra: com 8 horas de jogo, viu boa parte dos pontos clicáveis desaparecer em tela grande, e passou metade da aventura com um guia aberto ao lado. Você aperta os olhos para achar o único ponto que abre a cena seguinte, e não acha — é essa a queixa. A trilha sonora, segundo essa mesma conta, se repete cedo demais e cansa antes do fim.

Já a resenha que registra 0 horas jogadas na Steam — talvez porque a contagem nem chegou a rodar — vai mais longe: diz que os gráficos nasceram datados mesmo para lançamentos do começo dos anos 90, que o roteiro tenta ser adulto e erra a piada, e que a interface empurra o jogador para idas e vindas e diálogos que mudam sem aviso.

A crítica mais dura, então, não fala de algo que os fãs escondem: fala do mesmo obstáculo que até quem recomenda o jogo já admitiu ter enfrentado. A diferença é que, para quem chegou decidido a não gostar, esse obstáculo não vira nostalgia — vira motivo para fechar o jogo.

Serve para quem aceita pedir ajuda, não para quem quer respostas na tela

A mesma trava aparece nos dois lados: em algum momento, o jogo para de dar pistas e espera que o jogador procure a solução em outro lugar. É isso, não o gênero nem a época, que separa quem fica de quem desiste.

Para quem cresceu com esse tipo de aventura, ou está disposto a aceitar esse contrato sem ressentimento, essa mesma trava é o que sustenta gente redescobrindo Foster e Joey décadas depois do lançamento original. Se você gosta de esbarrar num impasse e sair atrás da resposta por conta própria, essa trava é parte do que funciona. Para quem espera que o próprio jogo aponte o caminho, a trava vira motivo de abandono bem antes do fim.

Quem topa o acordo encontra uma cidade sob controle de uma inteligência artificial, um robô com humor próprio e uma trama que não solta a mão do jogador até o final. Quem não topa vai lembrar só da tela em que travou — e do pixel que o jogo nunca quis destacar.